Entrevista com Sueli Brodin (*)

(*) * Sueli Brodin, nascida no Brasil e criada no Paquistão, no Japão e na França, mora atualmente em Bunde, Holanda. Trabalha para o Centro de Jornalismo Europeu e edita o site "Crossroads ". Sueli colabora periodicamente com o Íslenzk e fez a gentileza de conceder a entrevista abaixo, contando-nos um pouco da sua vida interessantíssima. Ah, e a torta que ela me comprou em Maastricht estava DELICIOSA!!!!
Íslenzk: Sueli, como você foi do Brasil à Holanda, passando pelo Paquistão e pela França? Conte-nos um pouco dessa sua tão interessante história de vida.
Ah, nem sei por onde começar!
Os pais da minha mãe, cujas famílias moravam na cidade japonesa de Hiroshima, emigraram para o Brasil um pouco antes da segunda guerra mundial. Como milhares de outros japoneses naquela época, pensavam que em apenas alguns anos de trabalho nas plantações de café iriam voltar ricos para o Japão. Mas os meus avós não conseguiram realizar esse sonho…e, alguns anos depois, por causa da guerra, os contatos com a parte da família que tinha ficado no Japão foram perdidos. Quando a bomba atômica caiu em Hiroshima, os meus avós pensaram que a família no Japão tinha desaparecido ao mesmo tempo que toda a cidade.
Meu pai nasceu na França, mas foi criado nos Estados Unidos, onde os seus pais trabalhavam na comunidade francesa de Nova Iorque. Meu pai viajou muito durante a sua juventude. Após um ano visitando o Japão, chegou ao Brasil, onde tinha obtido o posto de diretor de uma das várias Alianças Francesas do Rio de Janeiro. Como tinha aprendido a língua japonesa e não queria esquecê-la, foi visitar o Instituto Brasil-Japão, e foi assim que encontrou a minha mãe, que trabalhava lá.
Primeiro eu e, um ano depois, a minha irmã Márcia nascemos no bairro de Laranjeiras. Eu tinha somente dois anos quando o nosso pai foi transferido para a embaixada da França no Paquistão. Foi lá que nasceu o meu irmão Serge. Durante a guerra da independência do Bangladesh em 1970, tivemos que fugir algumas semanas para Kabul, no Afeganistão. Lembro-me ainda que tivemos que cobrir o nosso carro de lama para que fosse camuflado dos aviões “inimigos” da Índia.
Em 1972, mudamos para Tóquio, Japão, e minha mãe começou a procurar a sua família japonesa de Hiroshima. A minha avó do Brasil veio morar um ano conosco. Parece um milagre, mas, um dia, recebemos um telefonema oficial nos anunciando que a nossa família tinha sido localizada. Depois de 40 anos sem novidades, a minha avó foi reunida de novo com os meus tios e primos! O encontro foi muito emocionante.
Em 1976, meu pai foi transferido de novo, desta vez de volta para a França. Até aquela época, toda a nossa comunicação com a minha mãe tinha sido em português. Foi graças a isso que meus irmãos e eu nunca esquecemos nossa língua materna. Mas, quando chegamos à França, começamos a falar exclusivamente francês.
Depois de estudar a língua inglesa, passei um ano na universidade de Rutgers nos Estados Unidos, graças a uma bolsa de estudos.Trabalhei depois durante um ano com a revista ELLE em Paris. Mas eu me sentia muito só naquela grande cidade e resolvi viajar de novo. Fui para Israel, onde trabalhei como voluntária no kibutz Ramat Hakovesh, ajudando a tirar o leite das vacas e aprendendo hebraico. Foi nesse kibutz que encontrei o Herman, um voluntário holandês. Ficamos no kibutz quase um ano, inclusive durante a primeira Guerra do Golfo, protegidos com máscaras de gás dos scuds iraquianos de Saddam Hussein.
Agora já faz 14 anos que Herman e eu estamos casados. Vivemos felizes no sul da Holanda com os nossos três filhos, numa pequena aldeia bem tranqüila perto da linda cidade de Maastricht.
Íslenzk: Como você se lembra do Brasil? Tem vontade de rever o país?
A ultima vez que fui pro Brasil foi em 1982, quando tinha só 15 anos. Já faz uma eternidade! Estou com imensa saudade do país, da minha família, da música, da comida, das novelas, do sotaque tão bonito do português do Brasil. Sim, eu adoraria voltar pro Brasil e sonho com o dia em que meu marido e minhas crianças poderão conhecer a minha terra natal.
Ainda me lembro de uma canção que ouvi na televisão brasileira há muitos anos, na ocasião do dia da pátria:
“Ah! Meu Brasil, eu gosto de você
Quero cantar ao mundo inteiro
A alegria de ser Brasileiro
Conte comigo Brasil
Acima de tudo Brasileiro”
Eu era muito jovem e nós sempre estávamos de férias quando visitávamos o Brasil e, por isso, só conheci as coisas boas e alegres do Brasil. Na verdade, eu gostaria de ter um conhecimento pessoal mais adulto e mais completo do Brasil.
Graças à internet e às novas mídias de comunicação, estou em contato com vários amigos (como você, Gabriel!) e membros da minha família brasileira. Mandamo-nos e-mails, fotos, conversamos através de chat e nos vemos pela webcam, e, assim, a distância já não parece tão grande como antes.
Desde que meu pai se aposentou, meus pais passam dois ou três meses por ano no Brasil, e sempre nos trazem lembranças para matar a saudade, como café, feijão, goiabada, queijo minas, banana seca, suco de maracujá, farofa, canjiquinha….
Este novo ano começou de uma forma muito especial para mim: passamos o dia do reveillon em Paris com meus irmãos e primos do Brasil, que estavam de passeio na Europa! Eles prepararam um jantar bem brasileiro para toda a família (bacalhau assado ao forno com batata, cebola, pimentão e azeite de oliva, e arroz com feijão manteiga, ah que delicia!). Foi um inicio do ano maravilhoso e cheio de alegria para todos.

Íslenzk: Sueli, eu sei que é uma pergunta difícil! Mas conte-nos algo da visão que se tem do Brasil por aí. O que chega do país em termos de política e cultura, por exemplo?
A minha impressão é que o Brasil, para os holandeses, evoca principalmente os grandes jogadores de futebol. O Ronaldo era uma estrela nacional quando treinava aqui. Muitas crianças holandesas vestem camisetas das cores do Brasil e com o número 9.
Os holandeses adoram a música brasileira, e sempre ouço canções brasileiras na minha escola de esporte, como, por exemplo, o hit “Tô nem ai”, da Luca. Vivem muitos brasileiros na Holanda e na Bélgica. Aqui em Maastricht até existem uma escola de capoeira e vários grupos de percussão e de samba. Uma amiga brasileira de Maastricht que dá aulas de português traz muito interesse para a língua e a cultura do Brasil. Vejo regularmente filmes brasileiros no cinema e na televisão, como “4 de setembro”, “Domésticas”, “Cidade de Deus”, “Central do Brasil”, “Narradores de Javé”, “O Diabo a Quatro”… A novela “Sinhá Moça” passou na televisão belga alguns anos atrás… Leio anúncios de agências de viagem nos jornais holandeses para viagens baratas para as cidades de Natal e Recife. O Brasil aparece como um destino exótico, sinônimo de sol, férias, praia e música.
Mas também passam documentários na televisão holandesa sobre aspectos mais problemáticos do Brasil, como a corrupção em vários setores, a criminalidade nas favelas, as crianças das ruas, a indústria turística do sexo.
Eu acho que o Brasil é percebido como um país cheio de contrastes…
Íslenzk: Como é o seu trabalho, fale-nos um pouco do seu dia-a-dia.
Meus dias são muito ocupados! Nós levantamos às 7h da manhã, preparo os sanduíches de almoço para o Herman, o Tim e a Naomi, e ajudo a Sacha a comer o café da manhã.
Assim que possível, começo a preparar o “Media News Digest” para o Centro Europeu de Jornalismo (www.ejc.nl), que é um boletim diário de notícias. Durante o resto da manhã e da tarde, arrumo a casa, vou fazer compras, cuido da pequena Sacha, que só tem dois anos e ainda não vai para a escola. Também passo muito tempo trabalhando no Crossroads (www.ejc.nl/crossroads), um site na internet em inglês para os estrangeiros que vivem em Maastricht, e correspondendo com os meus “repórteres”.
Toda quarta feira vem a minha amiga brasileira Jacqueline (http://www.geocities.com/jmachadosouza/1.html) para a sua aula de conversação francesa ou inglesa. Graças a ela, tenho contato com o Brasil toda semana!
Às 3 horas da tarde, vou buscar o Tim e a Naomi na escola e cuido deles antes de preparar o jantar. O Herman volta do seu trabalho na Universidade de Maastricht às 6 horas e comemos juntos. Depois do jantar, vou para a escola de esporte para fazer um pouco de ginástica (geralmente spinning), enquanto o Herman cuida das crianças e leva-as a pra cama. Quando volto, começo a preparar o meu boletim de notícias para o dia seguinte.
Geralmente às 10 horas, o Herman e eu assistimos a um filme ou a um documentário – geralmente pré-registrado - na televisão. Nossos programas preferidos são os filmes e documentários da BBC, que são de alta qualidade.
Nos fins de semana, sempre que é possível, vamos passear pela região, que é linda e que fica muito perto da Bélgica e da Alemanha. Gostamos principalmente de visitar lugares históricos e castelos antigos…
Íslenzk: Sueli, e os pepernoten, estavam gostosos?
Ah sim, claro, comi demais!! Vocês já experimentaram também? Mas existem muito mais coisas gostosas aqui na Holanda. Venham descobrir as tortas de frutas de Maastricht! Gabriel, o que você achou daquela que compramos para você?


